Homens e Mulheres na Terceira Idade

Concedida à revista Viva Saúde

Daniela Talamoni: Na matéria, iremos abordar algumas diferenças entre homens e mulheres na 3ª idade -- enfocando um casal aparentemente feliz com a relação. é verdadeira a impressão que temos hoje de que as mulheres parecem sempre mais animadas do que os homens (seus maridos) para sair, passear, viajar, frequentar uma academia, aprender um novo idioma e dançar? Por que isso ocorre?
Luiz Cuschnir: Em geral são mulheres que estão mais livres, mais seguras, mais resolvidas em suas questões como mulheres. Estão menos reprimidas. Elas descobrem novos rumos de afirmação pessoal, conhecimento e cultura. Muitas nem se desenvolveram ao longo da vida, ficaram sequestradas pelo papel de mãe, senão também de dona de casa. Falo sobre isto neste último livro "Os Bastidores do Amor – Os sentimentos e as buscas e invadem nossos relacionamentos e como lidar com eles" (Ed. Alegro).

Daniela Talamoni: Nos grupos de discussão, quais as principais reclamações dessas mulheres maduras em relação aos seus maridos? E quais as reclamações desses homens? Está muito diferente das reclamações de 10, 20 anos atrás?
Luiz Cuschnir: Eles muitas vezes já estão querendo ficar mais tranqüilos, menos ativos, não estão nada vaidosos nem tão ligados em tantas atividades sociais. Incomodam-se de ter que lidar com uma vida social mais agitada, às vezes até porque têm dificuldade em conhecer e ir ambientes novos. é a introversão típica do homem, exacerbada nesta fase. Já as mulheres percebem o companheiro muito ausente, às vezes rabugento e mal humorado. Ele não quer mais se desenvolver em novos campos, não está mais ávido de novas descobertas como elas estão.

Daniela Talamoni: As mudanças que ambos os sexos sofreram nesses últimos anos (feminismo, pós-feminismo, masculismo, movimento metrossexual) afetou de alguma forma o comportamento dessa geração (que hoje tem mais de 60)? Afinal, hoje, eles precisam lidar com filhos e netos que pensam bem diferente, não?
Luiz Cuschnir: Podem vê-los de duas maneiras: com admiração por estarem conquistando novos papéis que eles nem pensariam em ter, como podem se irritar e discriminar com um olhar preconceituoso, tentando reverter ou rejeitar essas novas posturas. Também neste último livro trago casos de pais que tem inveja de filhos e não transmitem o potencial amoroso, criando muitas dificuldades no relacionamento com eles.

Daniela Talamoni: No sexo, parece que a animação se inverte. Neste caso, eles ficam bem mais assanhadinhos do que elas. é isso mesmo que ocorre? Por que esse comportamento ainda prevalece? (é verdade que remédios estimulantes, como o Viagra, para muitas senhoras, têm provocado o efeito inverso...Elas se sentem agustiadas por não terem a mesma vontade do marido...
Luiz Cuschnir: Não tenho percebido este efeito inverso. As mulheres podem ter uma dificuldade maior física devido aos hormônios. As relações podem se tornar mais difíceis. Também podem não se estimular com tanta facilidade como com eles e os remédios. Estão mesmo mais vas socialmente e podem se estimular por homens mais interessantes fisicamente, mais jovens e atraentes.

Daniela Talamoni: Como a nossa revista é focada em saúde...não poderia deixar de perguntar...A falta de sintonia entre os casais na 3ª idade podem causar problemas emocionais graves ao ponto de afetar a saúde...falta de entusiasmo, depressão...entre outros? Que tipo de problema de saúde é mais citado em seus grupos de discussão e consultório?
Luiz Cuschnir: Ambos estão em um momento onde precisam de estímulos novos e ao mesmo tempo, não conseguem respostas tão satisfatórias quando buscam novos parceiros. Podem desenvolver uma cera inadequação social, exagerando às vezes as buscas de inovações. A depressão muitas vezes aparece de maneiras muito sutis e irreconhecíveis. Os próprios efeitos colaterais das medicações para doenças físicas podem pioras certos aspectos de qualidade de vida. Certas restrições de atividades, ou se não forem cumpridas certas orientações aos cuidados destas doenças, também estarão interferindo nos hábitos e satisfações quanto a vida diária. Isso tudo pode propiciar um decréscimo do entusiasmo.

Daniela Talamoni: Um casal que sempre se entrosou e curtiu as mesmas coisas terá menos problemas na terceira idade do que um casal cujas diferenças sempre foram mais evidentes? Ou a falta de sintonia após os 60 depende de outros fatores?
Luiz Cuschnir: A mudança de estilo de vida, com o afastamento dos filhos, síndrome do ninho vazio, falta de atividades profissionais, distanciamento social, desvalorização social, etc podem provocar muitos desajustes no relacionamento, que independem de como estiveram antes.
Se construíram uma cumplicidade e um entendimento ao longo da vida, com certeza vai servir para enfrentar esse novo momento.

Daniela Talamoni: Quais as suas dicas para que eles (os casais que se amam e têm mais de 60) consigam manter a sintonia da época da adolescência ou possam conviver melhor? Nessa idade, a maioria dos filhos já casou, é independente, já saiu de casa...é possível viver uma segunda lua-de-mel ou isso é utopia?
Luiz Cuschnir: Sintonia como na adolescência ode ser uma utopia. O melhor é reescrever sua história, uma renovação do vínculo afetivo, uma redescoberta. Cria novos desafios e interesses. Amam com uma maturidade mais adequada.

Daniela Talamoni: Uma última observação e pergunta: antes uma mulher engolia muitos sapos - inclusive a traição - para segurar um casamento. E os homens, mesmo infelizes e com várias amantes, não abandonavam a mulher, para cumprir o seu dever de provedor e marido....Felizmente, isso já não acontece com tanta freqüência...espero! Imagino que o casal hoje só está junto há mais de 10, 20, 30 anos, porque realmente se ama. Mas não pode ser tão simples assim...Qual o segredo para uma convivência pacífica e saudável? Existe alguma receita, além de muito amor e respeito?
Luiz Cuschnir: Nem sempre a infidelidade indicava um desamor, e muito menos a necessidade do rompimento de relações profundas conjugais. Não é incomum que depois de passarem essa fase ficam cúmplices e muito companheiros,descobrindo projetos comuns, cuidam muito um do outro são os melhores companheiros. Ultrapassar essa necessidde de domínio e não confundir infidelidade com desamor, já é um bom caminho.


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